O Ginásio .

Publicado: outubro 30, 2007 em história

PICT0731.jpg image by Alfenim

 

O Ginásio Pernambucano é uma das mais tradicionais casas de ensino do Estado de Pernambuco. Foi criado através

da Lei Provincial No 369 de 14 de maio de 1855, que converteu o antigo Liceu em Gymnásio Provincial. A mesma Lei determinava a construção de um prédio para uso do Gymnásio Provincial, em regime de internato. Esta iniciativa do governo da Província refletia o quadro sócio econômico daquela sociedade.

Depois de passar pela grave crise do final do século XVIII, em meados do século XIX, a situação econômica da Província de Pernambuco transformara-se. Seus índices de importação e exportação eram apenas superados pelos do Rio de Janeiro, a corte. O Recife ganhava ares mais e mais urbanos.

A iniciativa do Conde da Boa Vista de melhor aparelhar urbanisticamente o Recife, a contratação do engenheiro francês Vauthier, foram passos decisivos, tanto para oferecer um melhor aparato urbano, com um novo teatro, praças, melhoria das ruas, quanto para facilitar o acesso à cidade, melhorando as estradas que ligavam o centro aos arrabaldes distantes.

Para o Gymnásio Provincial de Pernambuco buscou-se um projeto que atendesse à expectativa de um estabelecimento de ensino modelo. O regime de internato, muito necessário à estrutura social de então, permitia facilidades para o atendimento de alunos do interior da Província e de províncias vizinhas.

Os cortes nas paredes revelaram um intenso desgaste nos tijolos decorrente de uma erosão eólica demonstrando que a parede esteve sem reboco por um longo período de tempo.

O lançamento, a 15 de agosto de 1855, da pedra fundamental do edifício, constituiu-se em uma cerimônia solene, à qual compareceram praticamente todas as autoridades da capital da Província. Autoridades civis e eclesiásticas. No aterro da Aurora foi armado e paramentado “decentemente” um altar, no qual o Bispo da Diocese benzeu solenemente, junto com seu clero, aquela que seria a primeira pedra assentada para o edifício.

 

 

 

 

 

 

Aspecto do pátio interno do Ginásio Pernambucano.

O projeto para construção do Gymnásio Provincial de Pernambuco, no “aterro da Aurora” foi elaborado pelo então Engenheiro da Repartição das Obras Públicas José Mamede Alves Ferreira, no mesmo ano da criação do Ginásio, 1855.

José Mamede Alves Ferreira, pernambucano, substituíra em 1850 o engenheiro francês Louis Leger Vauthier, na direção das Obras Públicas. Estudara Matemática em Coimbra e graduara-se pela Escola de Pontes e Calçadas de Paris, em 1845, retornando posteriormente ao Recife. Ao longo do tempo, entretanto, as modificações mostraram-se bem mais profundas.

Decorridos 145 anos de sua criação, o prédio do Ginásio Pernambucano carecia de sérios reparos. Um grupo de empresas, cujos atuais dirigentes contam entre os antigos alunos do Ginásio, juntaram-se e assumiram a tarefa de promover a restauração do prédio. Precedendo as obras, foi realizada uma pesquisa arqueológica com vistas a atender questões formuladas acerca de detalhes da construção do edifício, e deste modo fornecer subsídios, com base na análise arqueológica das estruturas, ao projeto para sua restauração.

A análise arqueológica abrangeu desde a implantação do aterro, ao assentamento das fundações, as paredes e o acabamento da obra. Suas modificações ao longo do tempo, a implantação das novas comodidades, dos serviços públicos de iluminação, água e esgoto. Incluiu ainda, através do material arqueológico resgatado, o estudo dos hábitos, do modo de vida no ginásio.

Além da identificação cronológica das paredes, buscou-se resgatar as cores do Ginásio. As antigas pinturas de cada dependência foram cronologicamente identificadas de modo que tais informações possam ser utilizadas na restauração.

Durante a Prospecção Arqueológica no Ginásio Pernambucano foram ainda identificados quinze tipos diferentes de “bandeiras”. Doze delas fecham arcos e três compõem portas retangulares. Por outro lado, alguns arcos foram mantidos sem “bandeiras” enquanto outros foram entaipados por ocasião de reformas posteriores.

 

 

Início das escavações no pátio interno do Ginásio Pernambucano

A partir do estudo arqueológico foi possível observar-se as muitas alterações no pátio interno do Ginásio.

 

 

 

 

 

 

Ao centro pode-se observar o aparecimento de uma estrutura circular que corresponde a uma cacimba com 4m de diâmetro. Em seu interior foram encontrados vários objetos de uso pessoal.

O fechamento dos arcos vazados que estabeleciam uma livre comunicação entre os corredores e o pátio, as alterações no jardim interno, atendendo aos gostos de cada época. No início de seu funcionamento, o esgotamento sanitário no Ginásio fazia uso dos serviços dos “tigres”. Entretanto, ali chegou a funcionar o antigo sistema da Recife Draynage, sistema semelhante àquele empregado em Londres: aparelhos a sifão, emprego de máquinas a vapor e dupla canalização, com completo e abundante suprimento d’água. Representava um avanço na cidade de tal monta que a benção das instalações foi assistida pelo Imperador D. Pedro II, então em trânsito pelo Recife, a caminho da Europa. Do antigo sistema da Recife Draynage, de sua desativação, restaram vestígios no Ginásio. Fragmentos da antiga canalização de grés, vitrificado internamente, foram resgatados através da pesquisa arqueológica, denotando que o Ginásio não se encontrava entre aqueles edifícios do Recife em que o sistema não chegara a ser implantado.

Mas, anteriormente à chegada da água encanada, o Ginásio dispunha de sua própria fonte. Identificou-se através da pesquisa arqueológica, a existência no pátio interno, de uma grande cacimba, que por muitos anos atendeu pelo menos às necessidades de ‘água de gasto’ para o internato. Que atendia às necessidades de higiene de alunos e mestres, e muito provavelmente também à cozinha. Uma cacimba que teria funcionado pelo menos até a provavelmente até quando da implantação da “água encanada” no Ginásio, ou ainda até a determinação da Presidência da Província, para que fossem fechadas todas as cacimbas, no sentido de melhor combater as “febres” que assolavam o Recife. Em 1912 já se associava a presença de cacimbas às epidemias de febre amarela. E a Saúde Pública veio a decretar o aterramento das cacimbas. Fechá-las todas para melhor combater-se a doença. Fechava-se ou conservava-se clandestinamente.

Mas a descoberta da cacimba também trouxe à tona outras informações. Ali se encontravam conservados muitos testemunhos arqueológicos das práticas cotidianas: apanhar água da cacimba para escovar os dentes no pátio. E as escovas utilizadas bem demonstram o status social daqueles alunos, das relações comerciais com a França, no que se refere aos artigos para toalete.

Trouxe também informações quanto às brincadeiras: piões, carrapetas, jogos de dados, de dominó; até mesmo jogos com bolas, apesar dos reclamos por mais espaço do colégio, para as atividades físicas dos alunos.

E entre as atividades, não faltou o estímulo à arte, à música. Testemunhos dos instrumentos musicais utilizados provavelmente por alunos que integraram um dia uma das bandas musicais mais tradicionais do Estado: A Banda do Ginásio Pernambucano.

 

Pratos brazonados refletem o significado deste estabelecimento de ensino para a cidade.

Um internato, mais que uma casa de ensino, preparava o aluno para a convivência social, para os padrões de comportamento recomendados pela sociedade. Comportamento nos salões, comportamento à mesa. E a mesa do Ginásio, pelo menos em ocasiões especiais, ostentava uma fina louça brasonada, com o escudo do Gymnásio Provincial, à época do Império, e do Gymnásio de Pernambuco, já nos tempos da República. A baixela também trazia a marca do estabelecimento de ensino.

 

 

 

 

 

Fragmentos de instrumentos musicais encontrados na cacimba.

Pode-se observar ainda com base no estudo arqueológico, as modificações nos espaços do prédio, provavelmente associadas à extinção do regime de internato, em 1893. Ainda, uma grande reforma, já no século XX, quando o Ginásio recebeu um novo revestimento de piso – ladrilhos hidráulicos, cujos padrões individualizavam cada um dos diferentes espaços. O considerável aumento do número de alunos, o transito destes alunos entre as diferentes áreas, deixou registrado através do desgaste do piso, o fluxo das crianças nas horas de descanso, os locais preferenciais para reunirem-se, os acessos que utilizavam.

COMENTÁRIOS:

A pesquisa arqueológica permitiu o resgate não apenas de peças ligadas ao quotidiano do colégio, mas também de informações relacionadas aos aspectos construtivos da edificação. Estas informações contribuíram de forma significativa para o entendimento do espaço do edifício ao longo dos anos permitindo a sua restauração em bases seguras. O projeto de restauração coube a Pontual Arquitetos e teve o apoio da CHESF, ODEBRECHT, PHILLPS, AMRO-BANK e do Governo do Estado de Pernambuco, através da sua Secretaria de Educação.

 


O jogo de dominó deveria ser prática do alunos mais velhos ou dos adultos ligados a administração do colégio.

Conjunto de escovas de dente, em marfím, encontrados no interior da cacimba. São escovas produzidas em Londres e Paris.

Restos de papel enrolado em um bastão de madeira preservado pela umidade do interior da cacimba. (uma fila,cola, descartada depois de uma prova?)

Foi realizado um estudo das cores que foram usadas em todas as dependências do Ginásio ao longo dos anos.

Variedade de pisos encontrados nas diferentes dependências do Ginásio Pernambucano.

Fonte : http://www.magmarqueologia.pro.br/G_Pernambucano.htm

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